Crônica: Sardanha, o homem cobra

Sempre tenho dito e isso até é redundante que somos estrangeiros da terra que nos viu nascer e crescer. Digo isso por que a maioria das pessoas que povoaram nossos olhos durante certo tempo em nossa terra, desaparecem sem deixar rastro algum.

Entre os anos de 1984 e 1985 apareceu em Areia Branca um jovem cidadão de nome Saldanha, onde muitos o chamavam de “Sardanha”. Era um cidadão moreno, de estatura mediana, cabelos ralos, com sobrancelhas ralas, quase que inexistentes.

Saldanha, ou Sardanha, como queiram chamar, andava pelas ruas da cidade sempre despido da cintura para cima, com a camisa no ombro. Não tinha lugar certo para dormir. Usava qualquer lugar como dormitório, até mesmo em uma caixa térmica de isopor com proteção de zinco que antes servira para transportar o pescado de Areia Branca, por Ramos e Filhos. E essa caixa ficava sem utilidade alguma, com exceção as dormidas do andarilho, logo ali próximo ao comercio de Ramos.

A comida era escassa. Sempre doada por alguém que tinha o espírito solidário. Muitos usavam qualquer recipiente para doar a comida, até mesmo em lata de doces ou margarina. Era triste e desumana a situação de vida daquele pobre homem.

A população areia-branquense vivia apreensiva com a presença daquele jovem pelo fato não saber de onde vinha, como vivia e para onde iria. Porém um dia, Sardanha apareceu com um vicio jamais visto em nossa cidade. O rapaz era comedor de cobras. E para quem o conheceu, assim como eu, Sardanha tinha os olhos miúdos, com característica semelhante aos de uma cobra. Isso assustava as crianças naquela época.

Não cheguei a ver o andarilho

comendo cobras. Vi apenas o mesmo com segurando algumas serpentes de várias espécies na mão. Algumas vezes presenciei ele se alimentando de calango.

Ilustração

Ele tinha um mau cheiro danado entranhado no corpo. Isso por não tomar banho e viver perambulando nas vias publica pela cidade. Tínhamos Sardanha como um ser totalmente estranho. De “outro mundo” até, comentavam pessoas maliciosas.

Sardanha também costumava dormir dentro de sucatas de carros transformados que ficavam na oficina do mecânico ‘Véi’, pai do meu amigo Evandro do Vale.

O dito mecânico vendo aquela situação se repetir com frequência e por ser sabedor dos fatos relatados nesta crônica, soube que Sardanha era natural de uma cidade do vizinho estado do Ceará, mas não sabia qual. Foi então que resolveu escrever uma carta e enviou para um programa matinal de grande audiência na Rádio Verdes Mares do Ceará. Em Areia Branca, no Ceará e em nossa região aquela rádio tinha uma grande audiência.

Carta enviada de Areia Branca. Em Fortaleza, a carta foi lida ao vivo por um excelente locutor que não me recordo o nome. Em uma semana eis que surge boas notícias.

Pelos detalhes expostos na carta, a família deduziu quem seria, e acertou. Sardanha na verdade se chamava Pedro Manoel de Saldanha Neto, 29 anos de idade, natural da cidade de Jaguaruana no Ceará, bem pertinho de nós. O mesmo teve uma decepção amorosa quando tinha seus 23 anos, e sumiu da sua cidade, tendo que perambular em outras terras em busca de respostas para o seu grave problema. O mesmo sofria das faculdades mentais, esquecendo a sua naturalidade e família por completo

Será que o velho Sardanha teria encontrado a tal resposta para o seu problema? Será que ouve uma busca pelos seus familiares para levá-lo para de volta para ao seio familiar? Dessas bandas Sardanha sumiu, e faz tempo viu?

Na apenas eu mas sei que parte dos areia-branquenses conheceram e tiveram contato com ele, receberam notícias que o quase cidadão areia-branquense havia sido morto, atropelado por um caminhão em uma rodovia no estado do Ceará. Verdade ou mentira?

De uma coisa tenho certeza; por essas bandas o jovem que comia cobras nunca mais apareceu e as crianças nunca mais correrão com medo da pessoa de Sardanha.

Paulo César de Brito
Cronista areia-branquense