Crônica: Os Ursos do Carnaval

Não fosse á presença barulhenta deles pelas ruas, mal daria para perceber que se aproxima o período das festas de momo. São eles que têm dado o tom de carnaval de Areia Branca e cidades circunvizinhas. Nem mesmo os noss

os historiadores têm noticias de quando na verdade chegaram ou quem trouxe ao estado do Rio Grande do Norte ou Areia Branca, a tradição dos ursos que hoje vemos animando o povo em troca de alguns centavos.

Outro dia em conversa com o mestre cascudiano e conterrâneo Deífilo Gurgel (In memoriam), perguntei ao mesmo sobre a origem dos blocos de ursos no estado e em nossa cidade. Ele falou que acredita que tenha vindo do Recife ou de João Pessoa. Visto que, por lá, têm-se noticias dos foliões há décadas; e lembra também que na sua infânciaem Areia Branca, o mesmo já assistia aos cortejos dos “ursos”. Histórias desencontradas, datas imprecisas, nada pode ser dito com precisão, a respeito deles.

Em uma recente pesquisa que realizei juntos a outros pesquisadores, conterrâneos e amigos, cheguei a conclusão de que esta tradição é proveniente do povo cigano europeu que incorporou essa brincadeira ao carnaval de diversas regiões do país.

O Bloco BRB no Carnaval de 1993 em Areia Branca-RN

No passado os ciganos percorriam á cidade com seus animais, presos numa corrente, apresentando suas danças de porta em porta pedindo algumas moedas, ao som de ordem “dança la ursa!” tendo saído daí o nome dos blocos.

Na capital pernambucana, muitos “ursos” foram criados pro volta dos anos cinqüenta do ultimo século. Um dos mais famosos é o bloco “La Ursa” e é atribuída a ele a provável chegada dos grupos que hoje já se tornaram tradição tambémem Areia Branca.

Pelo que estudei, e tenho pesquisado sobre a bicharada, como é mais conhecida essa brincadeira em nossa cidade, teve seu inicio na datado a partir da década de 1940, pela família Gama, tendo como patriarca o velho Luiz da Gama e seus filhos que além da bicharada eram exímios em outras brincadeiras culturais como fandango, chegança, folguedos e a dança de côco. Para a bicharada os mesmos confeccionavam a cobra chinesa, a burrinha, o pássaro Arapiraca, o urubu e outros bichos.

A minha conterrânea Solange Rosana Gregório, ou melhor, Solange de Arita, que é professora, historiadora e pesquisadora, perante inúmeras pesquisas e estudos chegou à conclusão que a nossa bicharada é centenária e que completamos exatos 111 nesse ano de 2012.

A nossa salinésia tornou-se um seleiro cultural de blocos de bicharadas dos Gamas na qual destacarei aqui algumas delas e seus respectivos idealizadores.

  • Bicharada dos Gamas – Por Luiz da Gama e filhos em 1940
  • Bloco Rei – Por Surica em 1960
  • Bicharada do Bitoza. – em 1970
  • Bloco Rei da Mocidade BRM – Jainha de Bitinha em 1985
  • Bloco Rei da Bicharada – BRB. – Paulo César Brito e Família em 1988
  • Bloco Rei da União – BRU. Por Gideon,Gilvan e Lindomar em 1990
  • Os Depravados – Dedé de Gaíba, Lindomar, Rosemberg e Marquinhos de Marrom em 1992.
  • Bicharada do Marmorial – Augusto em 2000.
  • Bicharada Comando da Marechal – por Nonato de Tassinha em 2006.
  • Bloco Comando do Mutirão – Ivo Leno em 2007.

É importante ressaltar que até o ano atual quem ainda preserva a cultura, persistem e resistem ao passar dos tempos sãos as mais tradicionais bicharadas como o Bloco Rei com 52 anos, e o Bloco Rei da Bicharada com 24 anos.

A maioria dos outros blocos citadas já foram extintos e dificilmente voltarão. Para garantir a permanência e existência das bicharadas como identidade cultural de nossa cidade, as mesma em época momesca, recebe uma ajuda de custo advinda da Prefeitura Municipal através da Fundação Areia Branca de Cultura, como também o apoio cultural de amigos admiradores da picardia cultural, os exímios ursos.

Para que uma bicharada verdadeiramente cultural possa estar bem apresentável sociedade areia-branquense e aos foliões visitantes é necessário que Os bichos estejam bem vestidos e caracteristicamente parecido com o animal desejado, os componentes bem vestidos com seus trajes carnavalescos, uma boa bateria composta de violão, cavaquinho, reco-reco, surdo, tarol, ganzá, banjo e sanfona. Além é claro de uma porta-estandarte e do publico folião que é nosso alvo maior. Ai sim abram alas e deixem as nossas centenárias bicharadas passar.
Cantemos todos numa só voz, essa marchinha. “Êpa seu Bamba, Chegou o dia de nós todos se animar/ O carnaval que é a brincadeira/ sou de primeira e por isso o que é que há?/ Vamos brincar esses três dias/ Com alegria e a maior satisfação/ O urso vem bem direitinho/ Abrir caminho para todos foliões”.

Afinal somos conhecedores através de inúmeras pesquisas que, a nossa bicharada já tem mais de cem anos de existência, pelo menos em nível local. Já esta na hora dessa brincadeira folclórica ser tombada como patrimônio cultural imaterial pelo município, como fazem outras cidades. É o que todos nós merecemos como forma de reconhecimento e agradecimento aos Ursos do Carnaval.

Paulo César de Brito
Cronista areia-branquense

Crônica: Afinal, sapo mama?

Sempre em roda de amigos surgem inúmeros assuntos, e sem sombras de dúvidas classifico os mais comentados. Ou é sobre namoro, ou casos e causos acontecidos em épocas de infância ou adolescência.

Prédio do Grupo Escolar Romão Ferreira foi cenário de muitos causos

Pois bem, prefiro comentar da época de criança, e desta vez quando estudei em uma das maiores escola do município, na época em número de alunos, e por sinal de grande memória. Falo com bastante orgulho e saudades do Grupo Escolar Romão Ferreira, hoje Escola Municipal Romão Ferreira, pertencente ao mestre Luiz Gonzaga da Silva, ou popularmente conhecido Luiz Alves.

Digo sem medo de errar nos números que a cada 10 pessoas da minha idade, 9 delas  passaram pelos ensinamentos de seu Luiz e sua procurada escola.

Devemos atentar para alguns detalhes. Algumas pessoas, egressos daquela escola, soltam assuntos maldosos e relatam isso ou aquilo que jamais aconteceu. Quem realmente estudou lá, sabe dos casos e causos engraçados e exagerados do professor Luiz Alves e seu alunado. Pelo menos comigo e com minha turma foi assim.

Dias desse procurei alguns amigos para um bate-papo e um dos assuntos foi os causos acontecidos nos idos dos anos de 1970, quando eu fazia aulas de reforço no Grupo Escolar Romão Ferreira. Aqui eu confesso, pense num cara ruinzinho em matemática, e por lá procurei aprender nem que fosse um pouquinho.

Naquela época também estudavam por lá e eu guardo uma  nítida lembrança, de Quinca de Luiza Buchudinho, King Kong, Fineiro, Dadinho, Josafá e Josimar Florentino, Dedé de Tiquinha de Zé Pedro, Carlinhos Motorzinho, Dedé Cabelinho, Assisão e Zé Fonseca, estes dois últimos já partiram para outro plano.

Manoel, o ex-aluno de seu Luiz

Comigo estudava um artista, ou melhor, um gênio de nome Manoel. Este é irmão de Anchieta da Auto Peças.  Estudávamos no horário da manhã e certo dia, seu Luiz “espritado”, disse que todos os alunos naquele momento se preparassem, pois naquele momento aconteceria um trabalho e o assunto era diversificado, ou seja, conhecimento geral. Manoel era um daqueles alunos desprovido de inteligência, pois até hoje tem um aspecto facial de quem vive pelo mundo da lua. Ah Manoel esquisito!

Num é que seu Luiz chamou Manoel para ser um dos primeiros a ser sabatinado. Disse-lhe em alto em bom tom; “Seu Manoel… Responda-me, ou melhor, me diga três tipos de animais mamíferos” Manoel lá sabia o que diabos era lá “mamífero”. Outro detalhe quando acontecia esse tipo de trabalho, os demais alunos das outras turmas eram reunidos em uma só sala de aula.

Lembro-me que eu estava sentado em uma carteira que cabia 3 alunos e os meus companheiros de carteiras era o capitão Josafá e Dadinho. Foi quando o inquieto Josafá, ao ouvir a pergunta de seu Luiz direcionada ao seu colega Manoel, logo ficou “catucando” o sabatinado por trás disse-lhe “Girafa”. Manoel com o olhar muito desconfiado e com medo de levar umas boas palmatoradas disse “hôme, girafa é grande!” e Josafá logo retrucou “Mas Manoel ela mama”.

O pobre garotinho Manoel olhou para o professor Luiz Alves e perguntou; “Seu Luiz girafa mama?” Seu Luiz exclamou “Mama Manoel… Diga outro Manoel”. Outra vez Josafá diz a Manoel que  touro é mamifero, mas Manoel com um olhar reprovador para o capitão e solta a pérola; “home touro tem chifre”, e Josafá mais sacana novamente afirma “Mas ele mama!”. Pela segunda vez, o aluno Manoel volta a seu Luiz e pergunta; “Professor touro mama”, Prontamente recebeu a afirmação mestre que logo pergunta pelo terceiro animal mamífero informando da possibilidade de ele tirar nota dez.

A Palmatória, a pedra da licença e outros artigos do Professor Luiz Alves estão expostos no museu Máximo Rebouças

O solidário Josafá entra em cena mais uma vez e diz “Manoel agora é pra valer. Diga que o terceiro animal é sapo”. Manoel se preocupa com a cola recebida, olha para o Josafá e comenta “home sapo num mama não”.  Josafá para não ficar por baixo faz um comentário em cima da bucha; “Ora Manoel ele faz coá-coá na beira da lagoa, imagine mamar”. Manoel na mais pura inocência e falta de inteligência passa a olhar em direção o professor Luiz e solta a pergunta “Seu Luiz sapo mama?”

Seu Luiz deu aquela elegante fastada no birô “rarrrrrr” e saiu andando pela sala de aula de um lado ao outro, e mandando Manoel repetir a resposta e ele, já meio triste, perguntava repetia a pergunta “Seu Luiz sapo mama?” Rapidamente Luiz Alves pega a mão direita de Manoel, estira e diz a seguinte frase; “Seu Manoel, meu bichinho, se ele mama, eu não sei, agora que sapo pula, ele pula e essa letra M, que você tem na mão, eu vou lascar em quatro pedaços” descendo-lhe meia dúzia de bolos com a famosa Palmatoria Belinha.

Logo após a surra,  ficou balançando e soprando  a mão feito um louco, com os olhos cheios de lágrimas. Enquanto isso parte da turma ria com o episódio ocorrido numa daquelas manhãs no famoso Grupo Escolar Romão Ferreira.

Muitos outros causos aconteceram naquele Grupo Escolar que merecem ser registrados. De uma coisa eu tenho certeza, nunca mais Manoel fará uma pergunta dessas a ninguém, e se um dia vontade tiver de perguntar, ele pensará diversas vezes. Afinal Manoel, sapo mama ou não?

Paulo César de Brito
Cronista areia-branquense