Crônica: Banho de Chuva

Não há mais banho de chuva. Nem a chuva tem mais o lirismo e a

essência de antigamente. A chuva da minha terra era diferente das demais. A chuva da minha terra Areia Branca vinha das torres que se formavam nos horizontes do mar.

Era quase sempre de tarde. Algazarra da meninada no meio da rua esperando a chuva. Moças e rapazes no banho de chuva. As moças de família que prezavam muito pelos bons costumes tomavam banho de vestido e shorts longos. Maiô e biquíni só no banho de mar. E pronto!

E havia os namoros debaixo das biqueiras. Mas logo digo que eram decentes. Namoro naquele tempo era namoro mesmo. Almas atraídas  pelo dengo dos olhares aproximados. O namoro era cheio de romantismo.

Em meio a minha turma existia uma mocinha morena, a Sandra Valentim. Ela era uma das mais bonitas da Rua Marechal Deodoro. Ela tinha um corpo de boneca, como era moda dizer.

Eu muitas das vezes deixava o meu banho de maré quando sabia que Sandra estava no meio do mundo tomando banho de chuva. Logo tratava de ir à busca de ver aquela morena tropicana dentro daquela minúscula blusa regata branca, e shorts branco transparentes, colado pela água. De vez em quando as mãos delicadamente  daquela morena escorregavam sobre aquele corpinho esculpido por obras do criador, passando sobre aqueles seios, cintura, coxas… Oh, que saudades… Arre égua, mainha!

Na foto, Regi Clesia, Sandra Valetim e este cronista Paulo César de Brito

Eu era menino, com meus 13 ou 14 anos e Sandra já era mocinha, quase da mesma idade. Dali, eu e a meninada saíamos dos bairros dos Índios, Baixa da Maré, Somoban e Ilha com destino a rua da frente onde fica o cais, para continuar a algazarra tomando um delicioso banho de maré tradicionalmente dito.

Depois de algum tempo, logo inventava qualquer coisa para voltar a tomar banho nas biqueiras com a intenção de ver Sandra e suas irmãs e amigas digo; Suylene, Sâmara, (ambas ainda pequenas),Regi Clesia, Lucinha, Celeste, Lidice Leonês, Telminha e Micerlânge (amigas), com os lábios roxos de frio e tremendo com as mãos cruzadas sobre os seios. Era uma espetáculo admirar aqueles corpinhos sedutores daquelas mocinhas encantadoras. Era como costumam dizer hoje, uma “fechação”.

O desenho molhado do corpo esculpido pela chuva. Depois da chuva era comum encontrar os meninos brincando de barquinhos de navegação nas lagoas formadas pelas águas da chuva além das moças e rapazes namorando nas calçadas.

Hoje me deparo com Sandra, bonita e elegante como sempre. Mãe de filhos, esposa do meu amigo Levi de Chico Preto. Parte das suas irmãs e amigas citadas também já são mulheres de família e vivem com seus respectivos esposos. Inclusive Regi Clesia, que é minha companheira.

Fico a imaginar o quanto essas meninas, especialmente Sandra, me fizeram feliz bem como outros garotos no passado. Como saudosista que sou só me resta dizer com toda certeza que não há mais banho de chuva como antigamente.

Paulo César de Brito
Cronista areia-branquense