Crônica: A Gangue de Areia Branca

Em viagem a capital cearense para uma visita aos meus compadres. Digo os casais Alberto e Detinha Teixeira, Eriosvaldo e Márcia Santos para atualizarmos e colocarmos nossos papos em dias.

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ify”>A viajem foi realizada por Edinho Turismo, para nós, Edinho de dona Valmira. Naquele transporte viajavam também um casal de Fortaleza e outro conterrâneo de nome Eugênio Cavalcante.

Entre os variados assuntos estavam o esporte, a religião, a política que por sinal rendeu comentários apimentados, como também sobre os usos e costumes do nosso povo.

Em um determinado tempo os passageiros ali foram informados pelo inquieto motorista Edinho que eu tinha um site de entretenimento fazendo referência ao Portal Voz de Areia Branca, e que eu escrevia crônica relembrando o nosso povo e a nossa cultura de outrora fazendo o elo com a cultura atual.

Logo me questionaram se sabia algo relacionado a existência das gangues

de Areia Branca. Respondi que só sabia algo referente a truculenta “turma da vara” e a abestalhada e incompetente “turma da loucura”, nada mais. Foi nesse determinado momento de conversa que os inquietos Edinho e Eugênio revelaram que eles foram os idealizadores da famosa “gangue de Areia Branca”. Na hora, confesso, fiquei pasmo mais depois me tranquilizaram quando me contaram inúmeros causos engraçados realizados pela gangue.

Em meados dos anos 1960 e 1970, meninos criados a brincar nas ruas areadas de nossa cidade. Mas Edinho, Eugênio e outros já eram garotos inquietos. Foi daí que juntos resolveram variar as presepadas e preocupações para os seus respectivos familiares, criando e autodenominando de “A gangue de Areia Branca”. Pobre das pessoas que foram um dia “azucrinados” por eles, os “pestinhas da salinesia”. Não que eles fossem de praticar o mal, mas bem que gostavam muito de uma zorra.

Em um diálogo bem descontraído, os amigos peraltas me falaram que quando crianças, foram tomar um bom banho na Praia de Upanema, que na época era uma pacata praia até a chegada desses artistas. Pois bem, um gaiato teve a brilhante ideia de querer subir no farol existente naquela praia e de lá de cima urinar. E de fato o fez, só que um morador daquela vila-praia já avistara a presepada. Achando pouco o que aprontara Eugênio, logo Edinho de dona Valmira começou a jogar pedras no sentido do amigo “mijão” e uma das pedras por infelicidade quebra a lâmpada principal do farol. Logo em seguida, grande partes dos moradores tomaram conhecimento do ato praticado pelos meninos, comunicando em seguida o fato a agência da capitania que de imediato já relatou para a policia, para que esta tomasse as medidas cabíveis e capturasse os infratores. E foram pegos. Já na delegacia foram convocados os pais e responsáveis.

O delegado iniciou a investigação. Na hora do acontecido existia um morador que viu toda cena. E este dizia para os meninos a seguinte frase: “Eu vou dizer quem foi, eu vou dizer!” e os meninos, mais sacanas ainda diziam assim; “Diga, pois todos nós vamos dizer ao delegado que foi você quem mandou a gente ‘rebolá’ a pedra”. E ficaram nessa peleja por muito tempo. Segundo Eugênio, esse fato foi destaque no programa radiofônico “A hora do Brasil” transmitido diretamente de Brasília para todo o Brasil, com a seguinte manchete “o tráfico marítimo de Areia Branca-RN é interrompido por lâmpada do farol quebrada por grupo de garotos”. Moral da historia: Os bravos meninos foram levados por seus pais para casa e a única testemunha ocular do caso, ainda levou uma boa chamada do delegado.

Os “santos diabinhos” não se dando por vencidos, ainda aprontaram muito mais com a Marinha do Brasil em nossa cidade. Eles sabiam que não era permitido tomar banho no trapiche da maré, por ter materiais cortantes e pedaços de madeiras das velhas embarcações. Lá estavam eles tomando banho na maré. Logo que militares da marinha sabiam que eles estavam ali, incumbiam um civil que prestava serviço a agência da capitania de nome Cândido, mais popularmente conhecido na cidade “Canhidão”. Pois bem lá ia Canhidão retirar ou pelo menos tentar tirar os presepeiros da água. Esforço em vão. Não conseguia nada de nada. Os “diabinhos” ainda jogavam lama podre e preta na roupa limpa do servidor. Era um inferno a vida daquele homem com a presença desses malfeitores.

Os garotos eram conduzidos com frequência à delegacia de polícia por tamanhas loucuras que faziam. As armações eram tantas que o próprio delegado chamou a família dos meninos e falou: “Eu vou embora dessa P… diabos de meninos ruins. Eles são piores que os adultos. Nós não podemos dar nenhum cocorote nessas pragas! Vão ser ruins assim no inferno!”

Em Areia Branca naquela época já existia agente de proteção ao menor, só que com um pequeno detalhe, as pessoas que se disponibilizavam a atuar com justiça na maioria das vezes eram analfabetos de pai, mãe e vizinho. Um desses agentes era o grande Camilo. A turma já na adolescência sempre costumava ficar até tarde proseando na Praça da Conceição. Em uma noite em que o velho Camilo estava a serviço da justiça, sendo ele sabedor que aquela turma gostava de aprontar, foi de encontro aos meninos para abordá-los. Ao chegar na presença dos meninos, Camilo disse a seguinte frase com tom de autoridade: “Cadê os decumentos de vocês?” Repentinamente Edinho e Eugênio saíram com a seguinte resposta. “Vai procurar o que fazer e falar as palavras direito que decumento é documento! E nós não vamos dar nada a você não!” E saíram dando gargalhadas com a cara do agente Camilo.

Outro que sofria com as armações dessa turma era o tenente Casimiro, que na época era o presidente do Ivipanim Club. Cassimiro não permitia de modo algum a entrada ou permanência da turma em seu estabelecimento.

Num certo dia, achando pouco as armações, andaram rua por rua a procura dos gatos existentes na cidade para retirar uma pequena quantidade os pêlos. Eles juntaram todos os pêlos em saco. Ao anoitecer com destino ao tradicional clube Ivipanim. Chegando lá, através de uma brecha começaram a arremessar os pêlos de gato para dentro do salão, na proporção em que o ventilador ia girando, os pêlos eram espalhados por todo o dance.

Menino, em frações de minutos era uma espirradeira tão grande que foi preciso parar a festa para molhar e varrer o salão, pois os participantes da festa não aguentavam mais.

Outro fato que aconteceu no interior do clube foi em plena festa de carnaval. Com a casa lotada pelo tradicional baile da saudade, os jovens foram à festa só que com um detalhe; sabiam eles que em carnaval naquela época eram convidadas as melhores orquestras do estado. Eles prepararam um saco cheio de tamarindo e ficavam bem próximo aos músicos da orquestra chupando aquele fruto amargo e salivante deixando aqueles homens, principalmente os que tocavam instrumentos de sopro sem a menor condição de dar continuidade a festa, a ponto que um deles pediu clemência ao tenente Casimiro. “Pelo amor de Deus tire esse povo daqui! Desse jeito não tem condições de tocamos mais” afirmou um dos músicos. Era sacanagem pura!

Quem sofria com as armações da gangue de Areia Branca era Eliseu, que tinha um bar ali na rua João Felix, mesmo ao lado do INSS. A turma chegava lá e o dono bar logo perguntava se eles tinham dinheiro para beber. A turma dizia “ponha bebida aqui na mesa que temos dinheiro de montão!” Bebiam exageradamente e em quantidade, mas no final não tinham dinheiro para pagar a conta. Eliseu ficava P da vida. Mas fazer o que?

Soube que enquanto os artistas estavam a aprontar miséria nas ruas da cidade, suas mães se reuniam em uma casa para rezarem por seus filhos. Era muita oração. Era tanta oração que Deus ouviu cada prece e hoje eles são simplesmente cidadãos de bem, pais de família e trabalhadores.

Hoje já adulto, Edinho é cozinheiro marítimo e tem uma empresa de turismo, a Edinho Tur, reside na cidade de Mossoró. O amigo Eugenio mora na cidade de Pedro II no estado do Piauí e trabalha no Tribunal de Justiça daquela cidade. Somente vem a Areia Branca para visitar seus familiares e rever seus amigos. Nada mais da gangue, somente as amizades.

Paulo César de Brito
Cronista areia-branquense