Crônica: Em busca das minhas brincadeiras

Não sei se é porque hoje sou adulto (para não dizer quase idoso), e adulto não enxerga as coisas com olhos de crianças, mas o fato é que não vejo graça nenhuma nessas brincadeiras de hoje. E ainda tem brincadeira de criança atualmente?

E essas que representam personagens de ficção de fita infantil, então, nem olho. Já sei que a esta altura, o leitor, se for mesmo o caso, já deve estar se perguntando o que tem a ver espinhaço com cangalha, ou coisa assim.

Mas vamos adiante. Quem de nós nunca brincou verdadeiramente de brincadeira de criança. Falo aqui das brincadeiras de rodas, das cantigas  “tengo telengo tengo/pé de carrapicho/pega fulano e joga na lata do lixo”, “Passarás, passarás quem não for há de ficar/quem for passe a diante que não for fica pra trás/trás, trás…”.

E aquela, “Terezinha de Jesus/de uma queda foi ao chão/Acudiram três cavalheiros todos de chapéu na mão” como também “Eu sou pobre, pobre, pobre de marré, marré, maré/Eu sou pobre, pobre, pobre de marré gepê” e ainda mais “A canoa virou e tornou a virar, foi por causa de fulana que não soube navegar”.

Toda vez que relembro fico a cantarolar muitas vezes sozinho, aquelas canções que encantavam a meninada.

Imagem ilustrativa mostra crianças brincando de esconde-esconde

Se fosse para estar ao lado da pessoa amada, na qual todos os amigos eram sabedores. Estes por sua vez, davam total apoio referente ao namoro ou “fica”. Quem nunca brincou de cai no poço? Nessa brincadeira o objetivo era dar um passeio, um abraço, um beijo no rosto ou muitas das vezes aqueles gostosos bicudinhos pessoa deseja. Lembro também da brincadeira chamada de BNB, ou seja, beijo na boca, em que os participantes obrigatoriamente tinham que ter a famosa marquinha das três letras em qualquer parte do corpo. Quem não tinha era punido e teria que pagar a pena com um beijo na pessoa em que o colega indicasse para receber o beijo. Era gostoso demais.

Outras brincadeiras de infância eram Rei Maninho, ou popularmente chamada de “remandinho-remandinho”, cobra cega, passa o anel, fura-chão, pinhão, mão no bolso, roda a chinela, bila ou bola gude, pipa ou papagaio, castanha nas barrocas com direito ao castelo.

Sinto falta dos jogos de vispa ou bingo apostando palitos de fósforos ou carteiras de cigarro vazias. Tenho saudades do vira-vira com figurinhas duplicadas. A brincadeira do avião ou amarelinha, como queira chamar.

Os mais afoitos gostavam de brincadeiras mais resistentes onde correr era o exercício desejado. Você já brincou de tunfo, batelão, esconde-esconde, garrafão, Tica, Tica amigo e policia e ladrão? Quem nunca pelo menos uma vez na vida, não brincou de casinha com direito a cozinhadinho e ao famoso papai e mamãe com a intenção de dormirem juntos, onde rolava ali uns beijinhos e tudo mais. Era uma onda viu.

Outro dia Regi Clésia lembrou e comentou comigo que está bem viva em sua memória as cenas de seu pai quando confeccionava vários móveis como  mesas, cadeiras, guarda-roupa, baquinhas e outros tantos com tábuas de madeira para que ela juntos com as irmãs Emanoela e Chica pudesse passar parte de seu tempo brincando dentro de casa. Elas tinham também algumas bonecas confeccionadas de pano. Regi lembra que quando adolescente se juntava a outras amigas e a febre do momento era trocar papel de cartas coloridos. Cada garotinha tinha a sua coleção.

Francisca lembra que a mesma tinha em casa vários tipos de revista para fazer recorde e com estes formar a casa, a mobília e principalmente a família. Com coisas simples elas davam asas à imaginação. Chica recordou ainda de brincadeiras como “Um, dois, três chocolate inglês”, “Jogo de pedras nas calçadas”. Na brincadeira das pedras chegavam a formar círculos com vários jogadores.

Imagem ilustrativa mostra crianças brincando de roda

Girar o bambolê, fazendo malabarismo desde o pescoço até o pé, passando de um braço para o outro. Adoleta em que os participantes batem as mãos velozmente e cantarolam canções.

O nobre leitor deve estar se perguntando o porquê desse assunto. Digo é que hoje, em conversa com meus preciosos filhos fiz comentários sobre as brincadeiras do passado. Eles ficaram curiosos e até entusiasmados para brincar, querendo até brincar.

Perguntei á todos eles sem exceção, qual seria a brincadeira preferida. Alyssandra e Victória foram enfáticas e citaram as suas brincadeiras preferidas. Olha só como elas são evoluídas. Falaram-me que curtem Playstation, vasculham a internet nas redes sociais, digo Orkut, Facebook, msn, Twitter, E-mail e Jogos. Elas também tem o sonho de possuir o tal do “tablet”, iPhone, iPod, mp3 e mp4. Que coisa maluca, mas fazer o que né?

Quanto a mim e a você que curtirmos um dia quando criança e adolescente, aquelas brincadeiras que já não existem nos dias atuais. Diante disso posso afirmar que soubemos ser felizes, pois tivemos uma infância sadia e inocente. Ó quantas recordações boas.

Como este site é um espaço aberto, comente sobre suas brincadeiras e ajude a enriquecer esta singela crônica que retrata as brincadeiras do passado.

Paulo César de Brito
Cronista areia-branquense

Cronica: O Leão da politica areia-branquense

Expedito Leonez em sua primeira administração no ano de 1983 (Foto: Divulgação)
Expedito Leonez em sua primeira administração no ano de 1983 (Foto: Divulgação)

Acredito que o nobre leitor já tenha percebido que em parte das crônicas por mim escrita, sempre procurei destacar pessoas humildes e carismáticas.  Você deve estar se perguntando por que. Ora, para mim tem todo sentido, pois são essas pessoas que me dão verdadeira inspiração para falar dos usos e costumes do nosso povo.

É que hoje minha cidade portuária anoiteceu mais triste, digo no dia 28 de outubro de 2011, quando partiu dessa vida o ex-prefeito Expedito Gomes Leonêz.

Toda a Areia Branca sentiu pela irreparável perda, especialmente seus correligionários partidários que  choraram e lamentaram a partida do seu líder maior.

Deve-se considerar que o icônico Expedito era uma das maiores personalidades da politica areia-branquense. Verdade, verdadeira.

Quem pensa que para Expedito Leonêz chegar ao que chegou foi um mar de rosas. Puro engano. Ele ralou e muito para conquistar cada areia-branquense. Primeiro foi adotado por Areia Branca em meados da década de 1960. Foi salineiro, estivador e comerciante no ramo de mercearia. Nesta última empreitada não foi lá muito bom para ele, pois quebrou rápido de tanto dar as coisas ao povo no lugar de vendê-las. Daí ganhou um título que teve que levar para o além-túmulo. Passou a ser chamado  de pai dos pobres de Areia Branca.

O ex-prefeito nasceu no sítio Arapuá, município de Ipanguaçu (RN), em 10 de janeiro de 1941. Sua trajetória política na década de 1970 teve como pontapé inicial o Sindicato dos Estivadores, que o fez o vereador mais votado de Areia Branca em sua primeira investida na vida púbica.

Leonêz galgou todos os cargos eletivos na esfera municipal. Depois de vereador, foi vice-prefeito de Luiz Duarte Vasconcelos, “Luiz Vovô” no mandato de 1977-1982. Seu primeiro mandato de prefeito exerceu no período de 1983-1988; elegeu o sucessor o médico José Alfredo Rebouças (1988-1992) e retornou ao Executivo pela segunda vez, no período 1993-1996. Depois disso, a oposição liderada pelo então candidato a prefeito, o médico José Bruno Filho (PMDB), quebrou a seqüência de vitórias do grupo comandado pelo “Leão”. Mas ele voltou a assumir a prefeitura pela terceira vez, desta feita em 2004, para o mandato tampão de sete meses, no período de junho a dezembro daquele ano quando Bruno Filho foi afastado por determinação judicial.

O Leão em registro na sua administração no ano de 1992 (Foto: Arquivo/Divulgação)
O Leão em registro na sua administração no ano de 1992 (Foto: Arquivo/Divulgação)

Não lembro o inicio da vida política de Leonêz, mas recordo quando eu tinha na época meus 10 anos idade no ano de 1982 quando ele foi candidato a prefeito na sucessão de Luiz Vovô. O Leão tinha como companheiro de chapa, o Dr. José Alfredo Rebouças, candidatos pelo extinto Partido Democrático Social (PDS).

Seus adversários eram Dr. Ruidemberg Ferreira, o Beguinho pelo PMDB e Rudson Lima de Góis, então filiado ao PSDB.

Uma peculiaridade local era a associação do número do partido e do candidato ao número do jogo do bicho. O 15 era o jacaré, 16 era leão e 17 macaco. Aquela campanha foi bonita e acirrada, mas Expedito mostrava liderança pelo simples fato da humildade e do ser solidário com todos. Isso não quer dizer que os demais candidatos não tivessem essas características, mas que Leonêz liderava e ganhava o eleitor areia-branquense.

Naquele ano, foi eleito prefeito de Areia Branca com a maioria expressiva dos votos, Expedito Gomes Leonêz.

Lembro-me bem das composições das marchas tiradas para os candidatos sendo as de Expedito arranjadas na magnífica voz da cantora Raimunda Costa, que vem ser a nossa Amanda Costa, no meio artístico musical. “Nós somos do PDS/nossa meta é a maior/votando em Expedito e Zé Alfredo pra melhor/Se você vota com ele, eu também voto, eu também voto, eu também voto”.

Essa composição era a mais linda de todas: Nasceu ai uma amizade que deu certo/ de Zé Alfredo e Expedito Leonêz/ a sua meta e ajudar ao povo pobre/ com Expedito vamos votar outra vez/ o seu trabalho pelo povo e competente em sua vida sempre mostrou seu valor/ lembro na vida a amizade de expedito em cada voto vai se transformar em flor/ Vamos gente, vamos chegou nossa vez/ vamos gente com Zé Alfredo e Expedito Leonêz. José Alfredo sempre foi um moço pobre/ com sacrifício estudou e se formou/ agora vai ajudar a Expedito/ a governar Areia Branca com amor/ Vamos gente, vamos chegou nossa vez/ vamos gente com Zé Alfredo e Expedito leonêz”.

Às vezes quando estou só, me vem na lembrança as muitas marchinhas de campanha, como também das minhas idas por diversão aos movimentos políticos de ambos os lados, já que ainda não era eleitor. Era uma diversão na cidade.  Lembro também das campanhas que trabalhei como locutor. Saudades daqueles bons temps de companhias sadias. Como me faz falta!

Bom, voltando ao assunto da vida política de Expedito, ou do Leão, como muitos preferem chamar, devemos considerar que este foi um homem que sempre procurou fazer o melhor para dar o que tinha aos seus munícipes, em especial a Atenção humana.

Em sua primeira administração foi um exemplo de administrador colocando todos os pingos nos ‘is’. Já na segunda não foi nada agradável, por ser “bom” e de coração invejável, tornou-se bom pra os alguns e ruim para ele. Acreditou e confiou os melhores cargos da sua administração a alguns que fizeram da sua administração uma catástrofe. Chegou a atrasar pagamento dos funcionários como também deixou de realizar obras, o que estagnou o município. Fatos lamentáveis mas que devem ser considerados na história da cidade e do político.

Mas nem por isso Expedito baixou sua cabeça. Dizia que ainda voltaria a governar o seu município e que entraria para os brios da história da política areia-branquense como o primeiro prefeito a governar Areia Branca por três vezes. E aconteceu.  Quero aqui lembrar que Expedito também foi candidato a deputado estadual no ano de 1996. Naquele ano votei no areia-branquense de coração.

Lembro-me da nossa ultima conversa antes de assumir o seu terceiro mandato, estava eu no Hospital local para uma consulta quando o mesmo chegou também enfermo e logo começamos a conversar quando lhe perguntei sei ainda tinha o desejo de se candidatar a algum cargo político. Ele respondeu assim: “Paulinho a vera só está ferida. Eu ainda não morri. Vou tocar meu projeto político para frente, e escreva, pois sei que você gosta muito de escrever, que ainda vou governar Areia Branca. Vou dar a volta por cima”. Guardei aquelas palavras do ilustre político do povo e testemunhei o cumprimento daquelas palavras.

Uma das últimas fotos do Leão divulgada na imprensa local que informava sobre a saúde do ex-prefeito. (Foto: Divulgação)

Um outro dia relembrando daquele momento, amanheci com uma vontade imensa de conversar com ele, para justamente escrever um artigo sobre sua vida desde a sua infância até a sua vida na política. Foi em vão. Porém em um determinado instante corre rumores da noticia do falecimento do mesmo. Fiquei sem acreditar, achava que fosse mais uma das conversas da indústria da dos boatos local. Em minutos a noticia oficial “Morre aos 70 anos, o Leão, uma das grandes lideranças políticas do município de Areia Branca”.

A cidade parou, se calou e sofreu com a partida de um dos seus maiores lideres. Eu dizia em voz baixa e embargada “O Leão Leonêz partiu…”.

A todos que um dia o admiraram como pessoa e líder político, lembre-se de Expedito Leonêz da melhor forma que você queria que pensassem de você. Ele soube ser solidário, humano, amigo e companheiro. Suas virtudes foram maiores do que seus erros como humano. Expedito Gomes Leonêz, o eterno “Leão” areia-branquense entrou para a história deste pequeno pedaço do Brasil. Que descanse em paz.

Paulo César de Brito
cronista areia-branquense

Crônica: A Norte Salineira e Areia Branca

Galpão dos salineiros nos primórdios da salina em Areia Branca (Foto: Arquivo/Cedida)
Galpão dos salineiros nos primórdios da salina em Areia Branca (Foto: Arquivo/Cedida)

Alguns escritores areia-branquenses comentam em seus escritos das muitas empresas que existiram neste litoral na época em que o dinheiro corria frouxo. Posso estar enganado, mas não conheço autor ou texto que retrate a história da Norsal.

Por aqui existiram boas empresas como a Companhia de Navegação e Comércio – CNN, Companhia de Navegação Lloyd Brasileiro e a Wilson & Sons Agência Marítima Ltda. Esta última veio à falência e toda a área da Salina União que pertencia a esta Indústria do sal, foi vendida para a nova Norsal.

A Norte Salineira Indústria e Comercio S/A, ou simplesmente Norsal, tem sua fundação datada em 01 de junho de 1973 e seu primeiro Diretor Presidente foi o Dr. Paulo Ferraz (em memória)

Nos primórdios assim como as demais salinas da região, todo o trabalho para a produção, colheita e beneficiamento do sal era feito de modo artesanal, em que os salineiros usavam ferramentas rústicas como xibancas, pás e carros de mão para bater, lavar e carregar o nosso precioso ouro branco.

A Norsal é uma das pioneiras, sendo uma das primeiras a ter seu parque industrial mecanizado.

Moinho Holandês bombeava águas para a produção do sal. No registro fotográfico, este ficava próximo às dunas da praia do Meio. (Foto: Arquivo/Cedida)
Moinho Holandês bombeava águas para a produção do sal. No registro fotográfico, este ficava próximo às dunas da praia do Meio. (Foto: Arquivo/Cedida)

Responsável por produzir e comercializar cerca de 350 mil toneladas de sal marinho por ano, a Salina Miramar (antiga Salina União), foi projetada e construída com tecnologia francesa, que é considerada uma das mais modernas do mundo. São ocupados cerca de 1800 hectares do nosso território, sendo 1600 hectares alagados e 200 hectares de área para armazenamento e beneficiamento do sal.

No passado, esta empresa também foi dirigida por outras pessoas, entre eles quero lembrar a figura do Dr. Guilherme Pessoa Queiróz. Atualmente, a empresa é presidida pelo Sr. Marcelo Monteiro. Em nível local, a empresa é dirigida pelo competente Sr. Luiz Guilherme Santiago, que há mais de duas décadas com dignidade, responsabilidade e sensatez dirige todo esse patrimônio.

Luiz Santiago é um homem carismático, inteligente, atencioso e mantedor de uma visão ampla quando se refere à empresa que ele dirige, principalmente quando se diz respeito ao quadro de funcionários. Luiz Santiago é um amante da cultura e da educação e preza pelo desenvolvimento desta, em nossa cidade.

Em parceria com o SESI, instalou a Escola Norsal/SESI, inicialmente ofertando aos empregados o nível fundamental. Posteriormente esse atendimento foi ampliado para empregados, familiares e comunidade bem como a oferta de ensino que chega até o nível Médio.

Considero uma conquista inigualável. Para conduzir com amor à educação além-sala de aula, a direção da empresa recrutou e confiou a condução das disciplinas às mestras Aparecida Oliveira (Cidinha). Maria José Gaspar (Deda) e Mariane. Hoje, faço parte dessa família educacional, estudando na condição de ouvinte do Ensino Médio. Posso afirmar que é um ensino de primeira qualidade.

Luiz Santiago e este que vos escreve em uma das muitas confraternizações da escola Norsal. Atenção aos funcionários é uma característica marcante do diretor. (Foto: Arquivo/Cedida)
Luiz Santiago e este que vos escreve em uma das muitas confraternizações da escola Norsal. Atenção aos funcionários é uma característica marcante do diretor. (Foto: Arquivo/Cedida)

Voltando ao assunto empresa Norsal, segundo informações repassadas através da analista do RH da referida empresa, atualmente (dados de 2012) a mesma tem um quadro de empregados composto por 557 colaboradores. Antes era predominante o quadro composto por homens. Esse quadro vem mudando e muitas mulheres já ingressaram na Norsal e desempenham as mais diversas funções. Da limpeza aos processos de embalagem. Do escritório até à operação de máquinas empilhadeiras.

Esse número é ampliado em períodos de colheita do sal, ou quando há necessidade de recrutamento pela própria empresa. Estima-se, que já passaram pela Norsal nesses quase 39 anos, cerca de dez mil colaboradores. Faz jus quando dizem que a Norsal é uma empresa genuinamente areia-branquense. E de fato, é mesmo!

A todos vocês, Diretores, Gerentes, Supervisores, Coordenadores, Assistentes Colaboradores, familiares além dos alunos da Escola Norsal/SESI, o meu muito obrigado por me aceitar de forma carinhosa. Tenho orgulho de fazer parte dessa grande família chamada Norsal. Avante gente, Areia Branca precisa muito de nós!

Paulo César de Brito
Cronista areia-branquense

 

Crônica: Brincadeiras de minha infância

Carrinho de rolimã foi um dos brinquedos de minha infância
Carrinho de rolimã foi um dos brinquedos de minha infância

Atualmente as crianças brincam muito pouco. Na minha singela opinião, a modernidade tirou das crianças uma infinidade de brinquedos e brincadeiras saudáveis. Ultimamente tenho observado a ausência dos grupos de meninos e meninas que antes eram comuns em cada rua, em cada bairro. O que existe são alguns poucos que ainda resistem com a brincadeira de bola e gol mirim.

Em meu tempo de criança, a maioria das brincadeiras faziam as crianças praticar exercícios físicos sem perceber. Muitos objetos serviam para brincar e fabricar brinquedos. Lata de óleo ou leite, pneus velhos, tábuas e até meias serviram para alegrar a garotada.

Sem brinquedo algum, corríamos para chegar em determinados destinos. O mais rápido ganhava a aposta que em muitas vezes eram coisas da natureza como frutas da época que estavam a disposição da criançada na maioria dos quintais das casas.

Algumas escolas ainda conservam algumas brincadeiras e cantigas de roda e os contadores de histórias.

Quem lembra dos famosos carinhos de rolimã? Não era preciso ter dinheiro. Bastava procurar ou negociar com algum amigo para obter os rolamentos de ferro em alguma oficina mecânica da cidade. Após possuir as rodas de ferro, era a vez de ir em busca de madeira nas serralherias. Os mais experientes ajudavam os novatos na montagem do brinquedo sempre utilizando as ferramentas dos pais ou de algum conhecido. Depois de pronto, era hora de sair percorrendo as ruas sobre as rodinhas de ferro. Era uma das melhores brincadeiras daquela época. Posso até afirmar aquele arcaico brinquedo era um precursor do famoso skate.

Os inúmeros campos de futebol foram mitigados. Atualmente há uma certa quantidade de quadras poliesportivas espalhadas pelos bairros e comunidades em que para se jogar, faz-se necessário possuir ordens privadas, de escolas ou de clubes organizados.

Nos prédios escolares, poucos são os espaços destinados ao lazer das crianças. Seja através da televisão, do computador ou do celular, o que se sabe é que os eletrônicos dominam a vida das pessoas. Um avanço significativo em alguns aspectos, mas prejudicial em outros.

Você conhece alguma criança de hoje que brincou ou sabe brincar de “a gol mande” num campinho feito no chão com rabiscos de giz com jogadores formados por tampinha de remédios, de talco ou de tampa de refrigerante em que haviam figuras coladas com imagens dos seus jogadores favoritos? Que recordação, meu Deus!

Roladeira era feita com lata de leite vazia, areia, arame e cordão. Elas simulavam caminhões e até tratores. Tudo dependia da criatividade da criança.
Roladeira era feita com lata de leite vazia, areia, arame e cordão. Elas simulavam caminhões e até tratores. Tudo dependia da criatividade da criança.

Alguém é capaz de ver por aqui alguma criança jogando caipira, onde as apostas eram feitas com notas de carteira de cigarro? Ah, cada marca de cigarro possuía um valor diferenciado em relação às notas. Quanto mais antiga a nota, mais alto era seu valor.

Ainda esta vivo em minha mente o jogo de castanha, onde haviam as barrocas e o castelo. Bons jogadores ganhavam quilos da amêndoa do caju naquelas apostas. Conheci também excelentes jogadores de pião em nossa cidade. Caboclo de dona Raimunda Capitulina, Rogério de Miguel de Panta e meu irmão Nonato (in memóriam) faziam malabarismos e evoluções com os piões.

Em épocas de inverno, quando o tempo se preparava para chover era certo a falta de energia elétrica, principalmente no período da noite. A meninada atenta já preparava a lata de leite vazia, fazia alguns furos no fundo e fazia a alça com cordão ou arame e acendia uma vela dentro daquele protótipo. Estava pronta a lanterna. Os meninos saiam em procissão pelas ruas clareando os rostos de quem aparecia na frente da turma.

Construíamos também com a lata de leite as famosas roladeiras. Eu cheguei a possuir uma com 15 latas. Na dianteira usávamos também a lata de carne de conserva para simular o que seria um trator. A imaginação da criançada ia longe.

Tudo tinha sua época, cada brinquedo e brincadeiras em seu tempo. Pião e Fura-chão. Vixe, fui longe agora! Jogo de castanha e jogo de bila aconteciam sempre em época de inverno.

Já disse várias vezes aos meus filhos que eles não têm infância. Eles me perguntam por que eu digo isso. Logo respondo que eles não conhecem nenhum lugar onde andei e brinquei com minha turma e fomos felizes quando crianças e adolescentes. Atualmente nos deparamos com uma infância e juventude sem identidade, em que a tecnologia torna esses segmentos acomodados e sedentários.

Gostaria de ver a criançada de hoje brincando e se divertindo de modo saudável em que as interações e relações interpessoais existiam desde os primeiros anos de vida. Ao mesmo tempo aproveito para mais uma vez afirmar, sem medo de

errar que me diverti muito, mas muito mesmo. Nessa mesma oportunidade eu pergunto: e você, se divertiu em sua infância? Reflita e compartilhe conosco sobre seus brinquedos e suas brincadeiras.

Paulo César de Brito
Cronista areia-branquense

Professor reabre casa museu com objetos que resgatam a história de Areia Branca

Professor que construiu museu com recursos próprios, disse que realizou um sonho ao reabrir o local que é um presente para Areia Branca. (Foto: Carlos Júnior)
Professor que construiu museu com recursos próprios, disse que realizou um sonho ao reabrir o local que é um presente para Areia Branca. (Foto: Carlos Júnior)

Uma importante iniciativa que possui valor cultural e histórico para Areia Branca foi reaberta nesta quinta-feira (02): a Casa Museu Máximo Rebouças já recebe visitantes diariamente após um período fechado para reforma e ampliação.

O espaço que visa a preservação da história areia-branquense e de seu povo foi idealizado pelo escritor e professor da rede pública estadual e municipal Máximo Júnior Rebouças, que despertou esse interesse durante uma feira cultural na Escola Municipal Santo Expedito no ano de 2003, que tinha por objetivo resgatar a história da comunidade de Redonda.

Máximo Rebouças (à dir.) no antigo prédio que sediou sua iniciativa. (Foto: cedida)
Máximo Rebouças (à dir.) no antigo prédio que sediou sua iniciativa. (Foto: cedida)

A partir de então, Rebouças começou a buscar objetos, documentos e peças antigas que carregam suas particularidades atreladas ao povo e ao desenvolvimento da cidade.

Antes funcionando em um prédio com espaço limitado onde funcionou um estabelecimento comercial de sua família, o professor resolveu investir dinheiro do próprio bolso e através de empréstimos consignados, algo em torno de R$ 120 mil para construir um novo prédio com dois andares.

O museu dispõe aos visitantes, objetos que contam a história da economia ao entretenimento, da política eleitoral à primeira bandeira do município ou ainda das coleções de cartões telefônicos, moedas e maços de cigarro, que Máximo Rebouças faz questão de contar para quem chega e visita os espaços da casa.

Professor guia visitantes em viagem histórica sobre Areia Branca e sua gente.
Professor guia visitantes em viagem histórica sobre Areia Branca e sua gente.

Localizado no cruzamento entre a Travessa Antonio Quixabeira com Rua Marechal Deodoro, nº 522, o museu é aberto diariamente para visitas individuais e em caravanas mediante agendamento prévio por telefone a partir de hoje, o espaço funcionará das 8h às 11h30, das 14h às 17h30 e das 19h as 21h.

Caravanas podem agendar visitação ao local através do telefone: 9634-4285

Dificuldades

O entusiasta da cultura não vive apenas da alegria em receber com atenção cada visitante. À reportagem, Máximo Rebouças conta que a iniciativa privada não recebe apoio do poder público ou de outras instituições, o que levou a cobrança de uma taxa simbólica de R$ 1,00 por visitante que será destinada ao pagamento de despesas como energia, material de limpeza, etc. “O pagamento dessa taxa é facultativo e quem quiser visitar e não tiver dinheiro, terá acesso da mesma forma ao espaço”, reforça o dono do museu.

Crônica: A predição da cartomante

Parece que todos os escritores tem uma historia de profecia de uma cigana ou médium para contar. Eu mesmo que não me considero mais que um aprendiz de escritor, já tive uma experiência e irei contar algo profetizado por uma cartomante.

Ter uma filha era um sonho. Cecillia é uma predição da cartomante

Confesso que misturando realidade com ficção, bem de acordo com o meu jeito de contar, escrevendo o que afinal de contas não me compromete, ao passo que não compromete a outrem com o real ou o fictício. E se assim é, vamos em frente.

Lembro-me que era no ano de 1994 e ao chegar à casa de meus pais na Rua Duque de Caxias (antiga canal do mangue) para a minha visita matinal. Logo me deparo com a minha amiga de nome Badite (in memoriam). A mesma era médium e tinha a ciência da cartomancia (pessoas que ler e adivinha através das cartas de baralhos). Badite era uma eximia cartomante.

A mesma estava a realizar seus trabalhos de cartomancia, para alguém da minha família ou era uma pessoa conhecida. Não recordo bem quem era. Mesmo se eu me lembrar depois, por questão de ética não citarei o nome. Somente sei que ao passar ao lado da cartomante, ela fixou o seu olhar em mim e falou; “Preciso falar com você, meu querido. As cartas estão mostrando algo que você precisa ser sabedor”. Eu falei para ela, tudo bem, após essa pessoa conversaremosem particular. Elasorriu e confirmou.

Tomei água e com meia hora mais ao menos fui de encontro a cartomante e a mesma me convidou para  sentar ao lado dela. Na mesa lembro com detalhes tinha uma linda toalha branca feita de crochê, uma vela branca de sete dias branca acesa, varetas de incenso de rosas brancas exalando um agradável cheiro no ambiente.

Ela embaralhou as cartas e depois pediu que eu cortasse, ou seja, dividir ao meio as cartas. Foi o que eu fiz. Depois ela começou colocar as cartas sobre a mesa uma a uma e disse-me; “não fales nada, somente escute, se eu mentir mande-me parar”. Mesmo com um pouco de receio do que vinha a caminho falei tudo bem.

“Há quase dois anos você tenta se casar com uma jovem morena, baixa e forte por que mexeu com ela não foi?”, disse a cartomante. Eu falei é verdade! Na época eu era noivo de uma jovem, que aqui não quero citar nome. “Por duas vezes você perdeu três pares de alianças não foi? Você não acha que isso seja um anuncio que você não se casará com ela?” Eu falei, é pode ser. Por duas vezes perder as alianças é demais!

E ela fez um breve comentário dizendo; “meu filho, desista você não casará com ela. Não existe mais amor entre vocês nem ela lhe dará o que mais você deseja”. Na verdade o que eu gostaria de ter com a jovem que eu me envolvera a época seria um filho.

“Mas te digo que não fique triste por que ao seu lado existe uma moça também baixinha e forte, só que que dessa vez ela é branquinha e é sua amiga que vai dar-te o que mais você deseja”. Eu falei que os anjos digam amém. E sorrir para ela.

Porém essa amiga estava ao meu lado há quase três anos, e eu não percebia sua caída amorosa para o meu lado. Somente enxergava a sua boa amizade, pois até então gozávamos de uma linda e sincera amizade.

No ano de 1995 aconteceu o esperado. Comecei a sentir atrações amorosas por Regi Clesia Fernandes, e não é que começamos a namorar. E depois aconteceu o que a cartomante previu. Regi Clesia ficou grávida e me deu uma filha por nome de Cecillia Virginya. Com um tempo vieram mais dois, Paulo César de Brito Junior e Felipe Paulo. Apesar de ter participado e ser ogã de candomblé por anos nunca fui de dar crença à cartomancia. E sim, ao jogo de delegúns, os búzios.

Mas foi isso mesmo. A cartomante Badite acertou até no tipo físico da moça e em mais alguns detalhes. Encurtando. Com a notícia da gravidez da minha mulher e nascimento da minha filha, lembrei-me da predição da cartomante. Hoje sinceramente confesso, tenho saudades de Badite.

Paulo César de Brito
Cronista areia-branquense

Crônica: Tatu canastra

Tatu canastra na sua toca (Imagem: Internet)
Tatu canastra na sua toca (Imagem: Internet)

Trabalhando em Boa Esperança do Norte, Santa Rita de Trivellato, Água Limpa e Nova Ubiratan no estado do Mato Grosso, convivi com várias espécies silvestres. Entre tantos, o mais carrasco daquele habitat era o homem, que destrói a natureza sem pena e sem dó em nome da avareza e da ganância por dinheiro e poder.

Mas foi em Boa Esperança do Norte que um dia cumprindo a árdua jornada de trabalho, que me deparei com um buraco imenso e profundo cavado no meio do caminho. Fiquei olhando admirado e me perguntando por que os homens faziam aquilo. Fui informado por um morador da Fazenda Alvorada que aquele buraco não foi cavado por seres homens. A escavação foi feita por um Tatu Canastra.

Homens que trabalhavam no turno da noite, deram com um imenso animal desta espécie em seu principal ofício, ou seja, cavar buracos. Era um bicho enorme que pesava uns 70 quilos e media mais de dois metros. Abrindo os buracos com suas patas dianteiras, o bicho é lento e quem conhece afirma que o animal é dócil e tranquilo à presença humana.

Esta foto foi enviada pelo celular por um morador da Fazenda Alvorada quando encontrou um destes animais (Foto: Arquivo Pessoal)
Esta foto foi enviada pelo celular por um morador da Fazenda Alvorada quando encontrou um destes animais (Foto: Arquivo Pessoal)

Lendo o livro que foi publicado pela paróquia de Areia Branca em 1995, a qual escrevi meu primeiro artigo intitulado de “recordação da minha infância”, li um texto do saudoso escritor areia-branquense Antonio Silvério, onde o mesmo relata um fato vivenciado por ele há muitos anos no que futuramente seria transformado no Estado do Acre. Silvério trabalhava numa empresa que abria estradas e rodagens naquelas terras.

Nosso ilustre conterrâneo relata que como jovem que era, acompanhava seus amigos nas festas realizadas pelos moradores das comunidades próximas de onde os mesmos trabalhavam e faziam rancho. Em uma dessas visitas, o polivalente Antonio teve que retornar cedo da festa, já que o sono e o cansaço lhe dominava. No caminho de regresso que ele percorria, num certo momento o mesmo se depara com um obstáculo que fez o escritor pensar que tinha tomado um caminho diferente.

Mas Deus enviou um pirilampo ou vaga-lume, como queiram, conduziu o velho Silvério até o acampamento ziguezagueando. Ao chegar e conversar com seus coordenadores, o mesmo frisou que alguém fizera um buraco na bifurcação. Foi quando lhe informaram que a cratera fora aberta por um tatu canastra, e se o trabalhador tivesse se deparado com o bicho, teria caído para trás com medo e com o susto pelo tamanho do animal.

Avistar um, nunca avistei. Somente conheço sua imagem através de um celular filmado por uma equipe da sismografia que trabalhavam naquele horário matinal. E outra vez tive que assistir-lo através do programa Globo Rural produzido pela Rede Globo acredito que foi no ano de 1990. De uma coisa é certa, hoje é dia de saudades dos contos e das conversas com um dos homens mais inteligente e intelectual de Areia Branca, o guerreiro Antonio Silvério.

Paulo César de Brito
Cronista areia-branquense

Crônica: Longe de casa nunca mais

No aeroporto de Viracopos em Campinas (SP), pegando voo para Campo Grande (MS). De lá, segui de ônibus até Nova Mutum (MT).
No aeroporto de Viracopos em Campinas (SP), pegando voo para Campo Grande (MS). De lá, segui de ônibus até Nova Mutum (MT).

Diversas vezes tanto pedirmos a Deus para que ele nos proporcione oportunidade de viver e conhecer outras realidades. É aí que percebemos se estamos ou não preparados para sairmos mundo a fora em busca do sustento próprio e familiar e do êxito profissional. Primeiro temos que deixar nosso amado torrão, onde nos viu nascer e crescer.

Pois bem, resolvi ter um propósito com Deus por um determinado tempo. Ele me tiraria da minha terrinha Areia Branca, para que assim eu pudesse morar e trabalhar em outro estado. E foi o que ele fez.

Em setembro de 2011, voei com destino ao estado de Mato Grosso para trabalha na função de motorista na equipe sísmica 636 da empresa Geokinetics Geophysical do Brasil Ltda, mais precisamente nas cidades de Nova Mutum, Nova Ubiratan, Santa Rita de Trivelatto, Água Limpa e Boa Esperança do Norte.

Nessas cidades trabalhávamos em equipes de topografia, sonda, sísmica e RA (recuperação de área). O trabalho era árduo em um período de 42 dias por 24 horas revezadas pelas equipes dia e noite. Ali pude trabalhar com diversas etnias. Homens determinados pelo trabalho que entravam pelas matas  para executar as suas funções.

Nas matas da cidade de Água Limpa (MT).
Nas matas da cidade de Água Limpa (MT).

Matas que são o abrigo natural de vários animais e aves selvagens. Muitos nunca vistos na nossa região. Ali, vi animais como Tatu Canastra,Tatu Peba, Anta, Onça, Lobo Guará, Raposa, Queixada, Macaco, Ouriço, Tamanduá Bandeira, Furão, Veado e Capivara.

Aves como Mutum, Urubu Rei, Seriema, Araras, Papagaios, Emas, Gavião, Anum, Pica-pau, Uirapuru, Harpia, Colibri e Coruja. Repteis como cobras Jararaca, Caninana, Coral, Cobra verde, Cascavel e a temida Sucuri. Confessos que por muitas vezes tive medo da presença deles, mas fazer o que se a floresta é o habitat deles?

Foi um aprendizado e tanto, porém, digo e afirmo: É muito bom a terras alheia, mas a nossa é bem melhor. Como lição aprendi que devemos respeitar e amar a nossa terra natal e região. Amar e respeitar nossa família, pais, filhos, esposa e irmãos.

Só distancia nos faz refletir que estarmos junto das pessoas que nós amamos é bem melhor, sem sombra de duvidas. De uma coisa eu tenha a plena certeza, outra vez longe de casa, nunca mais.

Paulo César de Brito
Cronista areia-branquense

Crônica: Os carrinhos de confeito de antigamente

Carrinhos de confeito fez a alegria de crianças no passado. (Foto: Arquivo pesssoal)
Carrinhos de confeito fez a alegria de crianças no passado. (Foto: Arquivo pesssoal)

A cada dia meus leitores que comigo conversam nos encontros das ruas, relatam sobre as boas crônicas e sugerem novos textos. Sinto em alguns, uma tentativa de colocar minhas iniciativas para baixo, mas isso eu ignoro.

De outros, recebo incentivo e sugestões sobre novos assuntos ou mesmo complementos aos já publicados. Um deles vai de encontro aos comerciantes de balas, guloseimas e outros itens nos carrinhos de confeito.

Ofuscados pelos inúmeros comerciais da modernidade, os carinhos de confeito tem um papel secundário e cada vez mais esquecido. É impossível que no nosso âmago não desperte uma sensação de ingenuidade, de pureza e de retorno à infância num rasgo de sensibilidade em uma época dourada na qual o carrinho de confeito não levava só doces e baganas, mas os puros desejos de adultos e crianças, ideia de simplicidade que passa da nostálgica face do vendedor empurrando forçosamente e cabisbaixo por repicados de paralelepípedos.

Observo com prazer todos os dias em várias esquinas da nossa Areia Branca os poucos dos humildes vendedores que apoiados no seu material somado a um cochilo e há um dia inteiro de pouco dinheiro da venda de sua mercadoria.

Encontrei na esquina da loja M & M Variedades uma dessas vendedoras de nome Maria do Socorro da Silva, areia-branquense proprietária de um carrinho há 40 anos. Atualmente ela tem 63 anos de idade e desde os sete anos que atua na venda de guloseimas, auxiliando sua mãe de saudosa memória por vários pontos da cidade. Socorro é uma das poucas vendedoras que ainda existem, resiste e persiste ao tempo. Sempre irreverente, gosta muito de conversar e está sempre ladeada por bons amigos. Assunto é o que não falta no local onde fica seu carrinho. Política, religião e até um pouco da vida alheia, mas sem nenhuma intensão de denegrir a sociedade.

Feitos de modo artesanal em sua maioria de madeira, outros de zinco com rodas reaproveitadas de pneus de bicicleta, pintados com cores fortes para chamar atenção do público, os carrinhos faziam parte do cenário de muitas ruas do centro da cidade, principalmente aquelas mais movimentadas.

Nas festas, principalmente em agosto era comum encontrar todos os carrinhos lado a lado, concorrendo mas compartilhando das dificuldades em busca do pão de cada dia.

Aproveito e relembro outros vendedores que atuaram em Areia Branca; seu Expedido do cigarro (in memoriam) que tinha seu comércio ali onde hoje é a Foto Center de Ribamar Dantas, Miguel de Panta, Bacana, Zé Airão, Marlene Negão, Reginaldo de Miguel de Panta, Seu Manoel e Chaguinha, dona Maria Coró, dona Maria de Lourinho. E ainda Assis Pidão e esposa, Miguel irmão de Doquinha (in memoriam) e sua esposa Cineide, Amaro Rodrigues, Luiz de Macambira, Careca cambista, Tontonho Mangane, Preta do carrinho mãe de meu amigo Moisés, Tica do IPE e muitos outros.

Maria do Socorro é uma das heroínas que persistiu ao tempo. Ela continua vendendo com seu carrinho na Rua Barão do Rio Branco. (Foto: Arquivo Pessoal)
Maria do Socorro é uma das heroínas que persistiu ao tempo. Ela continua vendendo com seu carrinho na Rua Barão do Rio Branco. (Foto: Arquivo Pessoal)

Lembro-me ainda de Neco soldador, Neto de véi, Tremendão e sua filha, Batista de João Mandú, Barão do Picolé, Da Paz de Miguel Pescador, Miguel de Daura. Liro da reciclagem, Mundoquinha, seu Vicente dos Dedinhos, Curió, Bebeta de Evilázio e Ceará, seu Chico Preto, Ceguinho e Ranielle de Zé bonitinho e muitos outros que não lembro mais.

Quem nunca fez em sua infância, compras de confeitos tipo Xibiu, cumprido, da finura de um dedo de médico, Ice Kiss, Mel de Abelha, Iogurte, 7 Belo cartas de baralho, Caramelo, Bloo Sam com chiclete, menta ou hortelã?

Era preferência da minha turma o Azedinho que tinha a embalagem verde com amarelo, Mentol, Baba de bruxa, Plutonita, Kryptonita com pimenta, aff! Esse ardia feito o diacho como diz o ditado popular por essas bandas.

Além dos pirulitos famosos como bengala, revolver, boneco, cabeção, chupeta Pop, chupeta de Guaraná Pequena e em forma de guarda-chuva  que era feito de goma e todo colorido, pipoca salgada e doce.

Para os adultos, os carrinhos de confeito serviam para saciar os vícios do fumo. As principais marcas de cigarros comercializadas nos carrinhos eram Belmont, Classico, Hollywood, Continental, Malboro, Minister, Charm, Carlton, Plaza, Free, LS, Camel, Dallas, Derby Azul, Prata e Dourado, e etc.

No final do dia ou da noite lá seguia o vendedor com seu carrinho sem pensar, sem refletir, sem questionar, e no fim de cada interminável dia ele se esvai lentamente pelas ruas com destino a sua casa, certo de que mais uma missão foi cumprida com a venda através de seu carrinho.

Paulo César de Brito
Cronista areia-branquense

Crônica: A televisão e os filmes na infância

A criativa propaganda da margarina chamava minha atençao
A criativa propaganda da margarina chamava minha atençao

Em mais uma semana novamente acordo inspirado para escrever, graças a Deus. A princípio confesso que ainda não sabia sobre qual assunto escrever. Uma inquietação fazia com que eu andasse de um lado para outro nos cômodos da aconchegante casa de mamãe e papai. De repente, me deparo com a televisão ligada na TV Globo no momento em que eram anunciados os filmes que seriam exibidos na Sessão da Tarde dessa semana.

Como uma coisa puxa outra, minha mente regressou ao passado. Recordei de um comercial televisivo de uma margarina em forma de desenho animado que exibia uma menina de cabelos loiros e totó, onde ela passava a famosa margarina em uma fatia de pão. Ao morder aquele apetitoso pedaço de pão, um efeito sonoro era aplicado. Era assim “nhac”. Ah, lembrei a marca do comercial que me agradava; Margarina Claybom.

Outra propaganda que chamava minha atenção era aquela em que o ator Luiz Alves Neto, conhecido pelo pejorativo “Ferrugem”. O mesmo era garoto propaganda da marca Ortopé de calçados infantis. Alguém lembra da letra da música? Vou arriscar: “ortopé, ortopé, tão bonitinho. Aquele pequenino ator ficava tão engraçado fazendo aquele comercial.

Voltando

ao assunto do trailler dos filmes que a Globo anunciava naquela manhã, em minha opinião a seleção era péssima. Cada filme pior do que o outro. Em épocas passadas eram exibidos filmes inéditos e ainda filmes antigos. Tenho certeza que a grade agradava ao público diversificado de gostos e idades. Hoje não é a mesma coisa. É tudo sem pé e sem cabeça.

Para os cinéfilos ou mesmo os amantes da sétima arte, nas televisões por assinatura há um canal que exibe filmes que marcaram época como Dallas, As Panteras, Perdidos no Espaço, Viagem ao fundo do mar, Terra dos Gigantes, O Homem Biônico com Steve Austin, Mulher Maravilha, Tarzan, Mulher Biônica com Lindsay Wagner, Superman, Batman e Robin.

Há ainda Spectroman, Incrível Hulk com David Benner, Shazam, Ginie é o Gênio, O Gordo e o Magro, Os três patetas, Django, Godzilla, Dólar Furado e Superamigos – A sala da justiça.

Sempre fui fã das produções d'Os Trapalhões
Sempre fui fã das produções d’Os Trapalhões

Aquelas películas exibidas tinham um conteúdo que considero de qualidade, visto que os telespectadores participavam da estória e usavam a imaginação. Quem nunca se espelhou em um super-herói? Quanta saudade dos tempos em que eu e meus amigos escolhíamos os melhores super-heróis dos filmes e desenhos animados.

Em meados dos anos 1970 e 1980, grande parte da população areia-branquense não possuía aparelho de televisão em suas casas. Quando queríamos assistir uma novela ou filme, tínhamos que recorrer aos vizinhos, que vez ou outra estavam com semblante alegre e receptivos às visitas que buscavam pelo entretenimento eletrônico.

Em uma certa tarde a Globo anunciava que na Sessão da Tarde exibiria Os trabalhões em Ali Babá e os 40 ladrões. Eu sempre fui fã incondicional dos Trabalhões e não poderia perder a oportunidade de assistir aquela produção. Chegava o horário, lá ia eu para a casa de uma vizinha.

Contentes, eu e meus colegas sentávamos na sala. Uns nas cadeiras ou no sofá, outros se acomodavam no chão. Começa o filme e todos pareciam hipnotizados com os olhos e a atenção voltados para a caixa mágica.

Após alguns minutos de repente surge à nossa frente a proprietária da televisão que sem a menor ética e sem dar nenhuma explicação para a turma, desligou o aparelho.

Aos poucos, saíamos cabisbaixos e desconfiados daquele cômodo da casa. Para minha tristeza, não pudemos assistir ao filme dos trapalhões. Ficamos decepcionados pela atitude tomada pela dona da casa. Apesar de sermos crianças, já conseguíamos discernir o bem e o mal inerentes ao ser humano.

Quando cheguei em casa contei o que acontecera para minha mãe. Ela pediu-me que jamais voltasse aquela casa para assistir TV. Acredito que ela contou o ocorrido ao meu pai.

Em 1982 meu pai se empregava na Companhia Docas do Rio Grande do Norte (CODER). Ao ter renda garantida para sustentar sua prole, meu pai adquiriu um aparelho de televisão em preto e branco. A surpresa causou a felicidade de toda a família. Ele ainda fez questão de deixar um alerta: “nunca mais queiram ver TV nas casas alheias”.

Atualmente meus filhos tem acesso a um aparato tecnológico fantástico com TV, aparelho home theater que simula o som de cinema, DVD Player, notebook.

Nunca contei este fato aos meus filhos, mas não aceito que eles repitam aquilo que a mulher um dia fez comigo e com outras pessoas.

Hoje sinto falta da reunião da garotada ou mesmo dos adultos para assistir filmes e desenhos animados.

Paulo César de Brito
Cronista areia-branquense