Crônica: Iara Lins

Esta crônica é dedicada a Iara Lins (Foto: Cedida/Arquivo Pessoal)

Domingo é dia de mexer nos meus guardados. Já disse mais de uma vez,  catar o que não tenha mais serventia, para esvaziar gavetas. Papéis e mais papéis. E não é que  vez ou outra dou com os olhos num guardado que era, para mim, como se não fosse mais tanto tempo. Foi assim com uma fotografia de Iara Bernardo Lins, nome dado na pia batismal por seus pais Chico e Fantiquinha, moradores da comunidade da Redonda.

Conheci Iara na sua mais pura adolescência, ali pelo ano de 1992, a mesma morava com uma tia de nome “Nicinha” na rua Desembargador Filgueira, próximo a Escola Municipal Vingt Rosado Maia. Mas foi na calçada de uma residência em frente à casa de meus pais que eu a vi pela primeira vez a conversar com outros adolescentes que sorriam com assunto ora ali conversado. Aquele bate-papo me traz boas recordações.

Pois bem, foi meu irmão Deassis que me apresentou a Iara. Ele, meu mano, foi o mentor de toda a história. Sei bem que fomos apresentados. Iara ali com seus 14 anos bem vividos, a mesma esbanjava simpatia. Após a apresentação tivemos nosso momento para nos conhecer através de uma saudável conversa. Pois bem, ficamos à vontade e em pouco tempo já nos tornamos amigos. Ainda naquela memorável noite, Iara se despede dos demais adolescentes e comunica aos mesmo que vai se recolher para dormir pois no dia seguinte a mesma teria aula e teria que acorda cedo.

Meu irmão Deassis, muito astuto, percebendo que a mesma seguiria só para sua residência, falou para mim: “pergunte a ela, se você pode acompanhá-la até sua casa” Eu muito obediente que era, fiz a pergunta e logo recebi o sim, que podia. Confesso que amei a resposta.

Iara ladeada pelas filhas Vitória (à esq.) e Virna Lins (à dir.)

E lá fomos nós, caminhando e conversando. Já se passavam das 21hs. Os passos eram lentos, pois o nosso trajeto não passaria mais que 200 metros, a casa dele ficava na rua seguinte. Pois bem, ao dobrar a esquina entre as ruas Duque de Caxias e Antônio Quixabeira, criei coragem a segurei em sua delicada mão, macia e cheirosa. Paramos e ficamos a nos admirar com um olhar fixo um ao outro, e em segundos a abracei e logo como um bom cavaleiro que eu era, cheirei seu pescoço e pude sentir a fragrância do seu suave perfume naquele momento.

Foi em um determinado tempo entre o pegar das mãos e cheiros, que juntos resolvemos selar nosso encontro com o primeiro beijo daquela noite. Tomei a iniciativa de pedir a mesma um beijo, e em seguida em namoro. A resposta? Ah, a resposta foi um sim bem dado. Dali em diante foi só alegria. Muitos beijos, abraços e sorrisos escancarados em nossos rostos que nem se ligamos na hora. Já passavam das 23hs quando fiquei de prontidão na esquina e ela caminhou para sua casa, me saudando através de olhares, beijinhos e acenos de mãos. Momentos que talvez hoje para muitos adolescentes não exista mais.

No dia seguinte, sendo eu sabedor que a mesma estudava na Escola Estadual Conselheiro Brito Guerra no horário da 7 às 11hs, tive que ir ao seu encontro no horário do intervalo. Ali seguíamos para a Praça da Conceição onde sentávamos em um dos bancos e conversamos às pressas entre uma palavra e outra um beijo, pois a mesma tinha somente 20 minutos para retornar à sala de aula. Um caso raro e ao mesmo tempo interessante é que todo tempo que nos encontramos nessa praça eu levava para ela cartas escritas com pequenas poesias e desenho referente ao meu gostar por ela. Se ela gostava? Pelo olhar e o sorriso dela eu acreditava que sim. Eram sentimentos verdadeiros.

Namoramos ali entre 1 ou 2 meses, creio que não passou desse tempo. Iara teve que retornar a sua querida Comunidade da Redonda, pois seu período letivo tinha finalizado por essas bandas. Como não existia a tecnologia de hoje com tantas opções tipo WatsApp, facebook, Msn e outros, não éramos de nos comunicarmos. Se queria saber algo sobre ela, teria que perguntar a alguém que a conhecia. Soube meses depois que ela estava com um novo namorado. Por um certo período senti a sua falta. Senti saudades das nossas conversas. Sempre que a passeio passava ali na Redonda perguntava pelo destino de Iara. Quase que não se tinha notícias dela.

Iara Lins hoje é uma grande amiga que tenho (Foto: Cedida/Arquivo Pessoal)

Após 25 anos um dia estava eu de plantão no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência – SAMU, ali no hospital local, percebo que uma jovem me olhava, como quisesse me perguntar algo. Em um determinado momento ela bateu em meu ombro e me perguntou: – “Não está me reconhecendo?” Reconheci-a desde logo. Era Iara, foi minha namorada. Fazia anos que não nos encontrávamos, perdidos um com o outro. Conversamos, um bom tempo. Claro que conversa de gente adulta é sempre uma volta ao passado, mas ainda num reencontro depois de muito tempo. Iara me revelou parte da sua vida quando esteve distante dos nossos olhos.

Ela me falou que depois que voltou para a Redonda no final do ano letivo de 1992. Anos depois conheceu outro jovem com quem namorou e iniciou um relacionamento que não foi aprovado de bom grado pelos pais e familiares, o que lhe trouxe punições severas.

Segundo me contou, ela começou a namorar com esse jovem ainda aos 16 anos. Com o passar do tempo e em razão do inevitável para a idade e para os costumes da época aconteceu, os pais resolveram casá-los em 22 de janeiro de 2000, ela com 22 anos, ali mesmo em Redonda. Matrimonialmente eles estavam realizados. Já casados e sendo sabedora que seria mãe de uma menina, resolveram morar em Joinville, estado de Santa Catarina, onde moraram por quase dois anos. Neste intervalo de tempo com sete meses residindo naquela cidade, a jovem Iara retorna para o Rio Grande do Norte onde teve sua primogênita aos 23 anos, em 17 de fevereiro de 2001, nasce Vitória Lins, parto normal na Maternidade Santa Luzia em Mossoró. Após um mês de vida de sua filha, Iara retorna a Joinville.

Em agosto de 2001, com o termino do projeto da empresa que seu esposo trabalhava, Iara e família retornam a Redonda. Meses se passaram, então o casal percebeu que a família cresceria em números, a jovem mãe ficou gravida de mais uma menina. Para a felicidade dos pais em 04 de outubro de 2002, nasce Virna Lins. Desta vez Iara resolveu morar no centro de Areia Branca, por questão da vida profissional do seu esposo. A vida conjugal não foi favorável a jovem que logo se separou aos 26 anos, com suas filhas ainda crianças.

Vendo a necessidade de estar próximo a família resolve  cuidar da sua vó-mãe D. Francisca Morais do Vale, popularmente conhecida na Redonda por “Mainha”. Já idosa e com sérios problemas saúde, mainha deixa esse plano terrestre e vem a óbito aos 103 anos por insuficiência respiratória. Após a partida da sua vó-mãe, Iara permanece com moradia fixa na comunidade da Redonda, ao lado das suas belíssimas filhas Vitoria e Virna.

Quantas voltas essa jovem teve que dá para enfrentar a árdua vida que leva. Seria consequências do destino ou teimosia? Não sei, só sei que foi assim e pronto! Para a minha alegria, Iara me confidenciou que eu fui o seu primeiro namorado. Confesso fiquei feliz.

Iara, Vitoria e Virna, onde estiveres e como estiveres, lembrem-se sempre que aqui tens um grande amigo que torce a todo momento pela felicidade de vocês. Que estejamos sempre unidos em oração, pois juntos somos mais fortes. Obrigado, Iara por me aceitar em seu ciclo de amizade.

Paulo César de Brito
Cronista areia-branquense

Paulo César

Cronista e colaborador do site Voz de Areia Branca.

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