Crônica: A história se repetiu… por Kauany Souza

Crônica revela o olhar da estudante sobre o dia a dia dos Garis (Foto: Diego Pinheiro/Portal ESPM)

Já passam das seis, lojas se fecham, pessoas se recolhem, anoiteceu. Na imensidão das ruas, notam-se folhetos, papéis, sacolas espalhadas. No vai e vem do trânsito se aproximam eles, uma pá, uma vassoura, o carrinho com sacos empilhados, luvas, máscaras, mãos que trabalham para que o brilho da cidade permaneça.

Passo a passo percorrem ruas, vielas, encruzilhadas, são dias, anos, muitas vezes sem ser notados. Qual a sensação de estar no meio da rua e não ser visto, cumprimentado? O olhar carente, a mão calejada, o pingo do suor que naturalmente cai, responde.

Alguns passam e debocham, outros nem sequer olham, com ar de cinismo descrevem: “devem ganhar mais do que eu, vou me aposentar e trabalhar com eles”. Apesar da frieza destes, existem pessoas educadas que falam boa noite e lhes devolvem lixo na madrugada.

São quantas ruas? Dez, doze, dezesseis, não dá para contar, o barulho da vassoura na silenciosa noite libera o prazer de trabalhar, e assim vão eles, levam consigo histórias, aprendizados, repassando o motivo de estarem sempre varrendo, mal se vê eles parados.

Pega um saco aqui, repõem, tira outro dali, qual é mesmo seu nome verdadeiro? Eu me chamo gari. Esta sigla realmente diz o significado: GARI – Ganho Arrumando Ruas sou Invisível.

Chegou outro dia, amanheceu. Parece que nada mudou, tudo está no mesmo lugar, lojas ainda fechadas, ruas limpas e repaginadas. Porém, no silêncio da noite, quando ninguém percebeu, os “invisíveis”, trabalharam duro, se doam, tentando arrecadar seu ganha pão. Eles são pais e mães que varem para não veem seus filhos com os pés no chão, para garantir e fazer da cidade moradia da população.

Volto às seis da próxima noite, parece que tudo se repetiu: só se vê lixo e eles, uma pá, uma vassoura, o carrinho com sacos empilhados, luvas, máscaras, mãos que trabalham para que o brilho da cidade permaneça, ontem, hoje, amanhã, a história se repetiu.

Crônica de Kauany Souza, estudante de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo na UERN

Um comentário em “Crônica: A história se repetiu… por Kauany Souza

  • 12 de Janeiro de 2015 em 20:12
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    quanta honra vê minha crônica ai…

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